Por que a gente quer quem não quer a gente?
Imagine que você chegou a uma festa. Você se arrumou, escolheu a roupa, saiu de casa e, quando finalmente chegou à porta, descobriu que seu nome não estava na lista. A resposta mais lógica seria procurar outro lugar, certo? Só que alguma coisa curiosa acontece: de repente, aquela passa a ser a festa mais interessante da cidade. Você quer saber quem está lá dentro, por que não pode entrar e, principalmente, o que precisa fazer para convencer o segurança a procurar seu nome mais uma vez.

No amor, às vezes fazemos exatamente isso.
Basta alguém não responder com o mesmo entusiasmo, desaparecer por alguns dias ou soltar um misterioso “eu gosto de você, mas não sei o que quero agora” para a nossa cabeça começar a trabalhar em regime de plantão. Relemos conversas, analisamos o tempo entre uma mensagem e outra e procuramos significado em coisas que, em circunstâncias normais, talvez nem chamassem nossa atenção.
Então acontece o clássico:
a pessoa visualiza seu story às 2h13 da manhã.
Pronto. O caso é imediatamente encaminhado ao Supremo Tribunal Federal da Carência.
Será que sentiu saudade? Será que entrou no meu perfil? Será que queria falar comigo e desistiu? Será que aquela música que postou foi uma indireta? Em poucos minutos, uma simples visualização ganhou testemunhas, perícia e sustentação oral.
É engraçado quando contado assim, mas existe algo bastante sério por trás disso. A incerteza consegue nos manter mentalmente envolvidos. Quando não entendemos exatamente o que está acontecendo, tendemos a procurar respostas. E quanto mais pensamos em alguém, mais fácil fica cometer um erro importante: confundir o espaço que essa pessoa ocupa na nossa cabeça com o espaço que ela realmente ocupa na nossa vida.
Não são a mesma coisa.
Talvez por isso algumas relações confusas pareçam tão intensas. A pessoa some e você sente falta. Ela reaparece e vem o alívio. Depois esfria novamente, você fica ansioso, e qualquer demonstração de interesse parece enorme. Nesse movimento, a intensidade pode começar a ser interpretada como prova de sentimento, quando parte dela está sendo produzida justamente pela instabilidade.
Ansiedade pode ser intensa. Alívio também. Nenhum dos dois, sozinho, é intimidade.
Para pessoas LGBTQIAP+, essa conversa ainda pode ganhar uma camada particular. Muita gente cresceu aprendendo que desejar alguém não era tão simples quanto simplesmente demonstrar interesse. Antes, era preciso observar. Ele gosta de homens? Ela gosta de mulheres? Posso demonstrar? Será que vão perceber? É seguro falar? Essa pessoa poderia se interessar por alguém como eu?
Em muitos casos, aprendemos a investigar o desejo antes mesmo de poder vivê-lo abertamente. Isso não significa que pessoas LGBTQIAP+ estejam destinadas a relações difíceis ou que exista alguma característica da nossa identidade que nos faça escolher pessoas indisponíveis. Significa reconhecer que nossa vida amorosa não começa no primeiro namoro. Ela também é atravessada pela forma como aprendemos a ser vistos, desejados e aceitos.
Rejeição, preconceito, medo de rejeição e vergonha internalizada podem deixar marcas na maneira como construímos vínculos e percebemos nosso próprio valor. E é aí que aquela festa da primeira cena começa a ficar um pouco mais interessante.
Porque talvez, depois de algum tempo parado na porta, você já nem esteja pensando na festa.
Você quer entrar porque disseram que não podia.
Ser escolhido por alguém que antes não escolhia você pode carregar uma sensação poderosa de confirmação. Se essa pessoa finalmente me quiser, talvez isso prove que sou bonito o suficiente, interessante o suficiente, desejável o suficiente. A conquista deixa de ser apenas sobre encontrar alguém e passa a funcionar como uma espécie de resposta para uma pergunta muito mais antiga: será que alguém como eu pode ser amado?
Nesse ponto, o problema já não é apenas o segurança. É tudo o que aquela porta passou a representar.
Isso também ajuda a entender por que, às vezes, alguém disponível não provoca a mesma euforia. Não porque pessoas emocionalmente disponíveis sejam automaticamente melhores ou porque sejamos obrigados a desejar quem nos deseja. Atração não é prêmio por bom comportamento. Você pode conhecer alguém maravilhoso, disponível e emocionalmente saudável e simplesmente não sentir vontade nenhuma de beijá-lo. Faz parte.
A questão começa a ficar interessante quando a indisponibilidade, por si só, parece aumentar o desejo. Quando alguém gostar claramente de você faz a graça diminuir. Quando tranquilidade parece tédio, mas confusão parece química. Quando você sabe absolutamente tudo sobre os sinais que a pessoa dá, mas quase nunca parou para pensar se gosta de quem ela realmente é.
Os aplicativos de relacionamento podem deixar esse jogo ainda mais visível. Eles podem proporcionar encontros, sexo, amizade, namoro e relações importantes, mas também colocam desejo e rejeição numa velocidade impressionante. Em poucos minutos, somos vistos, ignorados, escolhidos, bloqueados, elogiados ou descartados. E, num ambiente em que aparência e validação ocupam tanto espaço, é fácil começar a usar o interesse dos outros como uma espécie de placar do próprio valor.
O problema é que nenhum placar permanece favorável o tempo inteiro.
Talvez por isso a pergunta “por que essa pessoa não me quer?” seja tão sedutora. Ela coloca toda a atenção no outro. O que faltou? O que ele procura? O que eu poderia mudar? O que aquela outra pessoa tem? É uma investigação que pode durar semanas e, curiosamente, evita uma pergunta muito mais desconfortável: por que é tão importante para mim ser desejado justamente por quem não consegue me oferecer o que eu quero?
É nesse momento que vale voltar para a porta da festa.
Você ainda está lá. O segurança continua segurando a lista. A música continua tocando do outro lado. Só que, depois de passar tanto tempo tentando descobrir como entrar, talvez seja hora de perguntar algo que não depende do nome escrito em papel nenhum.
Eu realmente quero estar nessa festa?
Porque existe uma diferença enorme entre querer uma pessoa e querer que uma pessoa queira você. No começo, as duas coisas podem parecer idênticas. Só percebemos a diferença quando deixamos de perguntar o que precisamos fazer para sermos escolhidos e começamos a observar o que também estamos escolhendo.
Talvez seu nome realmente não esteja na lista.
A pergunta é por que você ainda está na porta.