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Por que associamos passividade, delicadeza e feminilidade?

Quando um homem é delicado, evita conflitos ou não disputa poder, por que tanta gente imediatamente o lê como “feminino”? Talvez a pergunta não seja o que há de feminino nele, mas por que ainda associamos masculinidade à força, iniciativa e dominância.

Por Felipe Alves6 min de leitura
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Comportamento FHEFO.

Por que associamos passividade, delicadeza e feminilidade?

Existe uma associação que fazemos quase sem perceber. Quando um homem é mais delicado, fala de maneira mais suave, evita confrontos ou não demonstra tanta necessidade de ocupar uma posição de autoridade, frequentemente começamos a enxergá-lo como mais feminino. Nem sempre alguém precisa dizer isso diretamente. A leitura acontece no modo como aquele homem é percebido, nas brincadeiras que fazem sobre ele e até nas expectativas que passam a existir em torno do seu comportamento. É como se determinadas características viessem acompanhadas de um gênero, mesmo quando não existe nada nelas que pertença naturalmente a homens ou mulheres.

Isso acontece porque não aprendemos apenas que homens e mulheres são diferentes. Aprendemos também que deveriam se comportar de maneiras diferentes. Durante muito tempo, a masculinidade foi construída em torno de ideias como iniciativa, firmeza, autonomia, coragem, liderança e capacidade de impor a própria vontade. A feminilidade, por outro lado, foi ligada ao cuidado, à receptividade, à sensibilidade, à delicadeza e à disposição para ceder. Essas imagens foram repetidas tantas vezes na família, na religião, na escola, no trabalho, nas relações amorosas e na cultura que passaram a parecer características naturais dos próprios corpos.

Quando esse modelo é internalizado, começamos a interpretar comportamentos a partir dele. Se aprendemos que tomar a iniciativa é masculino, esperar pode parecer feminino. Se liderança é masculina, seguir alguém pode ser percebido como feminino. Se firmeza é masculina, suavidade pode ser lida como feminina. E se a masculinidade é frequentemente associada à posição de quem controla uma situação, qualquer comportamento relacionado a ceder, acolher ou se deixar conduzir corre o risco de ser colocado do outro lado dessa divisão.

É aí que delicadeza, passividade, sensibilidade e submissão começam a se misturar, embora sejam coisas bastante diferentes.

Uma pessoa delicada não é necessariamente passiva. Um homem pode falar baixo, ser cuidadoso com os outros e demonstrar afeto sem ter qualquer dificuldade para dizer não, estabelecer limites ou defender aquilo que deseja. Da mesma forma, alguém pode apresentar uma imagem extremamente masculina e ainda assim ter enorme dificuldade para se posicionar diante de outras pessoas. A aparência de força e a capacidade real de sustentar a própria vontade não são a mesma coisa.

Mesmo assim, continuamos confundindo essas características porque a própria ideia tradicional de masculinidade foi construída, em grande parte, pela tentativa de se afastar daquilo que era considerado feminino. Muitos meninos crescem ouvindo que precisam endurecer determinados comportamentos para serem reconhecidos como homens. O jeito de falar, de andar, de sentar, de expressar medo, de demonstrar carinho e até de reagir a uma provocação pode ser observado e corrigido.

Quando alguém diz para um menino “falar como homem”, por exemplo, não está apenas ensinando uma maneira de falar. Está comunicando que determinados gestos representam masculinidade e que outros podem colocar essa masculinidade em dúvida. Aos poucos, o próprio menino aprende a vigiar o corpo, a voz, os afetos e a maneira como ocupa espaço. Ele não aprende somente como ser homem. Aprende também tudo aquilo que um homem supostamente não deveria parecer.

Talvez por isso a feminilidade acabe funcionando, muitas vezes, como uma espécie de território para onde empurramos tudo aquilo que a masculinidade tradicional rejeitou. A suavidade vai para lá. A vulnerabilidade vai para lá. O cuidado, a receptividade e a possibilidade de não estar sempre no controle também. Quando um homem demonstra alguma dessas características, podemos ter a impressão de que estamos identificando algo feminino nele, quando na verdade estamos aplicando a esse homem uma divisão cultural que aprendemos muito antes de conhecê-lo.

Entre homens gays, essa lógica pode ganhar outras camadas. Mesmo quando não existe uma mulher na relação, os mesmos códigos de masculino e feminino continuam disponíveis para organizar a forma como enxergamos os dois homens. Quem parece mais dominante pode ser colocado simbolicamente em uma posição considerada mais masculina, enquanto quem é percebido como mais delicado ou receptivo pode ser empurrado para uma posição considerada feminina.

Essa associação fica ainda mais evidente quando aparece a sexualidade. A posição sexual de um homem pode começar a ser tratada como se dissesse alguma coisa sobre a personalidade dele, sobre a maneira como se veste, sobre seu corpo e até sobre como deveria se comportar fora da cama. Assim, ser passivo sexualmente pode ser confundido com ser submisso, ser submisso pode ser confundido com ser delicado e, no final dessa cadeia, tudo isso pode ser interpretado como feminino.

Só que nada disso necessariamente acompanha nada.

Um homem pode preferir uma posição sexual passiva e ser extremamente assertivo em todas as outras áreas da vida. Pode ser feminino e ocupar posições de liderança. Pode ser delicado e dominante. Pode apresentar uma estética completamente masculina e ter dificuldade de estabelecer limites nas próprias relações. Pode gostar de submissão em um contexto erótico específico sem desejar qualquer tipo de submissão no cotidiano.

O que acontece é que nosso cérebro gosta de organizar pessoas em categorias coerentes. Quando identificamos uma característica que culturalmente aprendemos a associar ao feminino, existe uma tendência de imaginar que outras características consideradas femininas também estarão ali. É como se construíssemos um personagem inteiro a partir de poucos sinais.

Por isso, talvez seja importante perguntar o que estamos realmente percebendo quando olhamos para um homem e pensamos que ele é feminino. Estamos identificando algo sobre aquele homem ou apenas reconhecendo nele comportamentos que nossa cultura decidiu colocar do lado das mulheres?

A delicadeza, por exemplo, não possui gênero. A capacidade de cuidar não possui gênero. A sensibilidade não possui gênero. Nem mesmo o desejo de ceder ou de ser conduzido em determinadas situações diz, sozinho, alguma coisa sobre a identidade de gênero ou sobre a sexualidade de alguém.

O que possui gênero são muitos dos significados que aprendemos a colocar sobre essas experiências.

Talvez por isso um homem delicado ainda consiga causar estranhamento enquanto um homem agressivo raramente precisa explicar por que sua agressividade parece masculina. Um comportamento se encaixa perfeitamente naquilo que aprendemos a esperar. O outro desafia a divisão.

E é justamente aí que a pergunta começa a ficar mais interessante. Talvez o mais importante não seja descobrir por que alguns homens parecem femininos. Talvez seja entender por que ainda reservamos características como cuidado, suavidade, sensibilidade e receptividade para a feminilidade, enquanto continuamos imaginando a masculinidade tão próxima da força, da iniciativa, do controle e da dominação.

Quando entendemos isso, fica mais fácil separar aquilo que uma pessoa realmente é daquilo que fomos ensinados a enxergar nela. Um homem pode ser delicado sem ser passivo, passivo sem ser feminino, feminino sem ser submisso e submisso sem deixar de ser homem.

As características humanas sempre foram muito maiores do que as caixas que criamos para organizá-las.